Para quem é celíaco comer pode ser um desafio diário. A intolerância ao glúten restringe a alimentação em restaurantes, padarias, cafés, eventos sociais, e muitas vezes, inclusive dentro de casa, devido ao perigo da contaminação cruzada. Por isso, o maio verde, mês dedicado à conscientização sobre a doença celíaca, busca evidenciar os impactos na vida de quem tem a condição e a importância do diagnóstico.
Conforme a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra), cerca de 2 milhões de pessoas possuem a doença no país, no entanto, as taxas de diagnósticos são consideradas baixas. A doença celíaca é uma condição autoimune, que pode se desenvolver em qualquer idade e afeta homens e mulheres. Com aspecto genético, o problema ocorre quando o sistema imunológico reage de forma anormal ao glúten, causando danos graves ao intestino delgado.
O glúten é uma proteína presente no trigo, centeio, cevada e aveia. Além de ser a base que dá viscosidade para itens como pães, bolos, bolachas, macarrão e massas em geral, ele também é amplamente encontrado em alimentos industrializados. “Quem tem doença celíaca não pode consumir nenhuma quantidade de glúten”, salienta a gastroenterologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Caroline Borges de Castro.
A gravidade da doença
Com a ingestão de glúten, o sistema imunológico do celíaco desenvolve um processo inflamatório que agride diretamente o intestino delgado. Como consequência, há um prejuízo significativo na absorção de nutrientes, como vitaminas e minerais, essenciais para o funcionamento do organismo. A inflamação crônica do intestino delgado e o déficit de nutrientes podem desencadear uma série de outros prejuízos à saúde, como o desenvolvimento de anemia crônica, osteoporose, dermatite herpetiforme, e o aumento do risco de câncer de intestino. Em crianças, a falta de absorção nutricional também pode comprometer o crescimento.
“Por algum motivo, que ainda não se sabe qual, o paciente celíaco acaba ativando o sistema imune quando entra em contato com o glúten. E essa tentativa de defesa acaba alterando a mucosa do intestino delgado, com isso a absorção de nutrientes é prejudicada”, ressalta a gastroenterologista.
Sintomas
Entre os principais sintomas da intolerância ao glúten estão:
- Diarréia
- Vômito
- Náuseas
- Distensão abdominal
- Anemia crônica
Diferença entre intolerância e doença celíaca
A principal distinção entre pacientes com intolerância ao glúten e celíacos está na agressão do sistema imunológico ao intestino delgado. Pessoas com intolerância podem apresentar os mesmo sintomas dos celíacos, no entanto, não desenvolvem a reação imunológica ao intestino. “Em relação aos pacientes intolerantes, os sintomas vão depender da quantidade ingerida e tolerada pelo paciente”, diz Caroline.
Diagnóstico
A gastroenterologista explica que a manifestação da doença ainda não está muito clara na medicina, mas um dos gatilhos para ativar o problema pode ser a reação imunológica a infecções virais ou bacterianas. “Às vezes é crônico e o paciente não percebe, mas é muito individual de cada organismo. Há pacientes que têm a doença celíaca e não têm nenhum sintoma”, explica.
Por se tratar de uma condição permeada por desconhecimentos, geralmente o diagnóstico demora de três a sete anos para ser realizado. “Muitas vezes o paciente tem os sintomas, mas não associa ao glúten e demora para procurar ajuda médica, e quando a doença celíaca não é cogitada a investigação pode ser mais longa. Por isso que a gente tem que pensar mais nessa doença”.
Entre as avaliações necessárias para identificar a doença celíaca estão exames de sangue específicos e biópsias por meio da endoscopia.
A primeira coisa que é feita quando a suspeita da condição é pedir exames de sangue para ver se o paciente tem anemia, algum déficit nutricional e verificamos dois marcadores de anticorpos, e começamos a investigação por aí.
Quando é verificada alguma alteração sugestiva da doença ou o paciente apresenta vários sintomas clínicos é realizada uma endoscopia para confirmar o diagnóstico. Tivemos um aumento de diagnósticos principalmente a partir de 2020, mas porque cresceu a investigação sobre a doença.
O tratamento é a eliminação total do glúten
Conforme a gastroenterologista, o tratamento para a doença celíaca e a intolerância ao glúten são diferentes. Para os celíacos a única solução é eliminar totalmente o glúten da alimentação, pois qualquer quantidade mínima da proteína é capaz de ativar o processo inflamatório. As recomendações para os intolerantes é reduzir a quantidade de acordo com os sintomas de cada organismo. “E para fazer a diferença entre os dois [casos] a gente tem que fazer um acompanhamento específico com exames”, explica.
Contaminação cruzada
Além de eliminar qualquer alimento com glúten da dieta, um dos maiores desafios dos celíacos é se proteger da contaminação cruzada. Ao usar um utensílio de cozinha que tenha tido contato com alguma comida composta pela proteína, a pessoa irá se contaminar. Por isso, a dificuldade para se alimentar fora de casa.
“Vamos supor que o paciente vá num churrasco e come carne, tranquilo porque não tem glúten. Mas se essa carne foi cortada em uma tábua que foi cortado um pão de alho, por exemplo, teve contaminação”, exemplifica.
Diante da complexidade dos cuidados, a gastroenterologista ressalta a necessidade do paciente poder contar com a conscientização e o suporte de amigos e familiares.
“É uma rotina que tem que ter muito acolhimento porque qualquer quantidade vai ativar o sistema imune”, diz.
Porém, a profissional salienta que ao conseguir ter uma alimentação zero glúten, o celíaco passa a viver uma vida normal, sem nenhum sintoma ou problema decorrente da doença. “É uma restrição importante e um baque inicial com todas as retiradas que têm que ser feitas na dieta, mas extremamente possível quando é acompanhada de forma correta”.









