A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) acaba de atingir um novo marco na ciência brasileira. O Laboratório de Genômica Estrutural (GenEstrut) anunciou a geração dos primeiros modelos de zebrafish (uma espécie de peixe) geneticamente editados por meio da tecnologia CRISPR-Cas9, colocando a instituição em um grupo restrito de centros de pesquisa do país com domínio completo dessa metodologia em animais.
A conquista é resultado de anos de trabalho coordenado pelos professores Vinicius Farias Campos, Mariana Remião e Tony Silveira, e representa mais do que um avanço acadêmico: abre caminho para pesquisas voltadas à regeneração de tecidos, doenças cardíacas, câncer, Alzheimer, diabetes e desenvolvimento de novos medicamentos. “Hoje dá para dizer que somos referência. Há instituições grandes no país que ainda estão estruturando essa capacidade”, afirma Vinicius.
O que é edição genômica?
A técnica CRISPR-Cas9 permite modificar pontos específicos do DNA de um organismo com alta precisão. Diferentemente da transgenia tradicional, que inseria genes de forma aleatória, a nova tecnologia atua exatamente no trecho escolhido pelos pesquisadores. “É tu poder cortar, inserir ou modificar algo em um ponto específico do genoma. Direcionado”, resume Mariana Remião.
Na prática, os pesquisadores identificam um gene de interesse, criam “guias moleculares” que localizam esse trecho e, com enzimas específicas, realizam a alteração ainda no estágio inicial do embrião.
O peixe como base

(Foto: Jô Folha)
No caso do zebrafish, a intervenção ocorre logo após a fecundação, quando o organismo possui apenas uma célula. “Aquela única célula vai originar todas as outras. Por isso a edição precisa acontecer no início”, explica Tony Silveira.
Pequeno, de reprodução rápida e desenvolvimento transparente nos primeiros dias de vida, o zebrafish tornou-se um dos modelos biológicos mais utilizados no mundo. Sua principal vantagem é permitir observar rapidamente os efeitos das alterações genéticas.
Como forma de comprovação científica, os pesquisadores alteraram o gene referente à cor do animal. O resultado é visual: peixes editados não produzem melanina, portanto, não têm cor.
Objetivo é avançar para a saúde humana
O projeto iniciado em 2019 em parceria com a Unesp de Botucatu, busca entender genes ligados à regeneração de tecidos, especialmente do coração. A meta é identificar mecanismos que possam futuramente auxiliar pacientes vítimas de infarto. “O grande problema do infarto não é só o evento em si, mas a incapacidade de regenerar o tecido lesionado”, explica Campos.
Segundo os pesquisadores, se for possível descobrir genes capazes de estimular essa recuperação, no futuro poderá surgir uma terapia gênica aplicada diretamente em áreas lesionadas do coração. “Estamos no começo do processo. Primeiro precisamos criar os modelos, entender os genes e comprovar a função deles”, afirma Mariana.
Ciência aplicada e inovação
Além da pesquisa acadêmica, o grupo também transformou o conhecimento em negócio. A partir da tecnologia desenvolvida no laboratório, surgiu a startup Tetiz Biomodelos, incubada na UFPel. A empresa presta serviços para universidades, centros de pesquisa e empresas que necessitam de animais geneticamente editados para estudos científicos.
A CEO e cofundadora Amanda Weege explica que existe uma demanda reprimida no país. “Muitos laboratórios utilizam zebrafish, mas não têm estrutura para produzir modelos geneticamente editados. Nós fazemos isso sob demanda”, afirma. Hoje a empresa já mantém cerca de mil peixes e recebeu recursos de programas de fomento para expansão da estrutura.
Estrutura rara no Brasil
Os coordenadores destacam que dominar a técnica exige muito mais do que equipamentos. É necessário conhecimento em manejo animal, biologia molecular, microinjeção, genética e regulamentação. “Poucos laboratórios no Brasil têm todo esse fluxo de trabalho completo”, resume Silveira.
Segundo o grupo, até instituições de grande porte buscam cooperação com Pelotas para desenvolver essa expertise. “Estamos fechando parceria com a Fiocruz, que ainda está estruturando essa área institucionalmente”, revela Campos.
Pelotas como polo de biotecnologia
O grupo também aposta no futuro Parque Tecnológico da cidade, onde está prevista a construção de um complexo voltado à saúde e biotecnologia, com laboratórios certificados para desenvolvimento de produtos regulados pela Anvisa.
A ideia é transformar Pelotas em referência nacional no setor e manter talentos formados pela universidade na região. “Nosso programa de pós-graduação tem conceito máximo na Capes. Temos gente qualificada e queremos que essa tecnologia fique aqui”, afirma Mariana.
Próximos passos
O próximo passo será testar a funcionalidade dos genes editados: verificar se tecidos regeneram mais rápido, se doenças podem ser reproduzidas para estudo e se novos tratamentos apresentam eficácia.
Os pesquisadores reconhecem que aplicações clínicas ainda exigirão anos de testes, mas ressaltam que o principal já foi conquistado: a capacidade de fazer ciência de fronteira em Pelotas. “Não queremos ficar só no laboratório. O objetivo é transformar conhecimento em benefício real para a sociedade”, conclui Vinicius Campos.













