A visita de pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil (SGB) à Zona Sul na última semana levantou dúvidas sobre o projeto Geoparque Paisagem das Águas. A principal delas: o geoparque teria relação com o recém-criado Parque Nacional do Albardão e poderia impor restrições a atividades econômicas e ao uso das lagoas dos Patos e Mirim?
Segundo o coordenador do projeto Geoparque Paisagem das Águas, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Adriano Simon, a resposta é não. Apesar do nome semelhante, geoparque e parque nacional possuem objetivos e funcionamentos diferentes.
“O geoparque não é uma unidade de conservação como um parque nacional ou uma reserva ecológica. A palavra parque, nesse caso, está ligada ao reconhecimento de um território que possui patrimônio natural singular e que pode usar isso para desenvolver turismo, educação e atividades sustentáveis”, explica.
O Geoparque Paisagem das Águas é um projeto desenvolvido pela UFPel em parceria com o SGB e inclui municípios como Pelotas, Rio Grande, São Lourenço do Sul, Turuçu, Arroio do Padre, Capão do Leão e São José do Norte. O objetivo é mapear a geodiversidade da região para depois buscar reconhecimento da Unesco. O foco da pesquisa são elementos naturais ligados à água, relevo, sedimentos e formação do território.
Já o Parque Nacional do Albardão foi criado por decreto federal em março deste ano e é uma unidade de conservação de proteção integral. Localizado em Santa Vitória do Palmar, o parque possui área predominantemente marinha e tem foco na preservação ambiental e na proteção de espécies ameaçadas.
No caso do Parque do Albardão, atividades como pesca e extração de recursos naturais são proibidas dentro da área delimitada. O decreto também criou a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão, onde atividades econômicas podem ocorrer de forma sustentável.
Diferença está na proposta
Adriano Simon afirma que uma das principais preocupações do projeto Geoparque Paisagem das Águas tem sido justamente esclarecer que o geoparque não pretende criar novas restrições. “A salvaguarda do patrimônio natural não significa impedir as pessoas de utilizarem o território. O que se busca é valorizar aquilo que já existe e criar oportunidades ligadas ao turismo, à educação ambiental e ao desenvolvimento sustentável”, afirma.
Maior sistema lagunar do Brasil
Segundo ele, o conceito de geoparque da Unesco parte da ideia de que determinadas regiões possuem relevância internacional por registrarem processos importantes da história da Terra. No caso da Zona Sul, o destaque está na dinâmica hídrica formada pela Lagoa dos Patos, Lagoa Mirim, Canal São Gonçalo e o estuário que conecta as águas ao Oceano Atlântico.
“Aqui nós temos o maior sistema lagunar do Brasil e um dos maiores do mundo. Toda a água de uma grande parte do Rio Grande do Sul e do Uruguai passa por essa região antes de chegar ao mar”, explica.
Estudos até 2028
O acordo de cooperação entre UFPel e SGB prevê estudos até 2028. Entre os produtos previstos estão um atlas da geodiversidade da região, um sistema online de informações geográficas e o levantamento de pontos de interesse geoturístico.
A candidatura oficial à Unesco ainda não foi enviada. Conforme Simon, o processo costuma ser longo e depende da criação de uma estrutura de governança entre universidades, municípios e comunidades locais.
RS tem três geoparques
Hoje, o Brasil possui cinco geoparques reconhecidos pela Unesco, sendo três no Rio Grande do Sul: Quarta Colônia, Caçapava do Sul e Caminhos dos Cânions do Sul. No Estado, ainda há outros projetos em desenvolvimento, como o Raízes de Pedra, na região central gaúcha. Caso avance, o Geoparque Paisagem das Águas poderá se tornar o primeiro geoparque brasileiro voltado exclusivamente ao patrimônio hídrico.











