Quem a direita coloca no lugar?


A candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República está fragilizada e pode não chegar às urnas. Os áudios que ligam o senador ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal, colocaram em xeque o principal argumento do bolsonarismo: o de que representa o combate à corrupção e à velha política.

O paradoxo é que, mesmo com o escândalo, o bolsonarismo continua sendo a única força capaz de equilibrar uma eleição contra Lula. As pesquisas mais recentes mostram Flávio empatado com o presidente no segundo turno. Nenhum dos demais candidatos da direita chega perto disso. A crise atinge exatamente o único nome que torna a disputa competitiva. A direita não pode descartar Flávio sem abrir mão da competitividade, e não pode mantê-lo sem absorver o custo político do escândalo.

Jair Bolsonaro, preso, prefere a primeira opção. Teme perder o controle sobre o campo conservador se abrir mão da candidatura do filho. Mas o risco é concreto: um novo ciclo de revelações sobre o Banco Master pode ampliar a desvantagem de Flávio no primeiro turno antes mesmo das convenções partidárias, em agosto, tornando a manutenção da candidatura insustentável.

Se esse ponto chegar, a direita olha para os governadores. Ronaldo Caiado, que migrou do União Brasil para o PSD, e Romeu Zema, do Novo, são os nomes mais articulados fora do clã. Os dois têm trajetória de gestão e discurso conservador consolidado, mas nenhum dos dois tem penetração nacional suficiente para substituir o capital eleitoral que o sobrenome Bolsonaro ainda carrega. Zema já recusou ser vice de Flávio, sinal de que prefere apostar no próprio nome mesmo sabendo das limitações.

Há ainda uma direita mais jovem, representada por Renan Santos, do MBL, que aposta nas redes sociais como substituto de estrutura partidária. Nas pesquisas, essa aposta ainda não se traduziu em intenção de voto relevante.

O nome que resolveria boa parte desse impasse está fora da corrida. Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, era o candidato com maior potencial de unificação do campo conservador. Mas ele confirmou que disputa a reeleição no estado e declarou apoio público a Flávio.

Isso importa também para o empresariado. De modo geral, o setor rejeita as políticas econômicas da esquerda e tende a concentrar financiamento no campo conservador. Mas financiar campanha exige previsibilidade, e a direita não oferece isso agora. No Brasil, o apoioa um candidato não é só recurso financeiro — é sinal político que atrai mais apoio. Com a crise de sucessão em aberto, esse sinal segue sem destinatário claro. Até quando, só agosto vai dizer.

Selos e moedas

A Câmara de Pelotas aprovou, nesta semana, dois projetos de lei de autoria do vereador Paulo Coitinho (Cidadania) que criam programas sociais nas áreas de inclusão e sustentabilidade. As matérias seguem agora para análise do Executivo e, se sancionadas pelo prefeito Fernando Marroni (PT), precisarão ser regulamentadas pela Prefeitura antes de entrarem em vigor.

O primeiro projeto institui o programa Cidade Amiga do Autista — Selo Azul, voltado a estabelecimentos públicos e privados que adotarem práticas de acolhimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista,a capacitação de funcionários e a redução de estímulos sensoriais. Os locais que atenderem aos critérios receberão um selo de reconhecimento. O projeto também torna obrigatória a instalação de sinalização nos prédios públicos municipais, medida que amplia o acesso à comunicação não verbal para pessoas com dificuldades cognitivas.

O segundo projeto cria o programa Moeda Verde, que permite a troca de materiais recicláveis por alimentos, hortifrutigranjeiros ou créditos sociais. A iniciativa prioriza pessoas em situação de vulnerabilidade social, cooperativas de reciclagem e entidades comunitárias, porque busca combinar o incentivo à coleta seletiva com o enfrentamento da insegurança alimentar. O projeto prevê integração com políticas públicas já existentes nas áreas de assistência social e meio ambiente.

Campanha financiada

O Tribunal Superior Eleitoral autorizou o início do financiamento coletivo para as eleições de outubro de 2026, permitindo que candidatos e partidos comecem a arrecadar recursos por meio das chamadas vaquinhas digitais antes mesmo do período oficial de campanha. A medida segue as regras estabelecidas pela legislação eleitoral, que exige cadastro prévio na plataforma credenciada pelo TSE e vinculação dos valores arrecadados à conta bancária do candidato registrada na Justiça Eleitoral, porque qualquer movimentação fora desse sistema configura irregularidade sujeita a sanção.

A antecipação do período de arrecadação tem impacto direto sobre candidatos sem acesso ao fundo eleitoral ou com cotas menores do fundo partidário, já que o financiamento coletivo representa, para esses perfis, a principal fonte de recursos disponíveis. Por isso, a abertura das vaquinhas tende a funcionar também como termômetro político: candidaturas com maior engajamento de base conseguem arrecadar volumes significativos antes mesmo do horário eleitoral gratuito, o que indica apoio real e antecipa disputas que só serão formalizadas com o registro oficial das candidaturas, previsto para agosto.



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