Pela primeira vez em dois anos, o dólar está operando abaixo de R$ 5,00, cotado em R$ 4,993. A última vez foi em 27 de março de 2024, quando a moeda americana encerrou em R$ 4,979. O movimento deverá ter efeitos positivos na economia pelotense, mas não será imediatamente.
Para o economista Eduardo Tillmann, entre os efeitos positivos está a redução da pressão inflacionária. A tendência beneficia consumidores, indústria e comércio, já que insumos, produtos finais e mercadorias importadas passam a custar menos. “Se agora eu preciso de menos reais para comprar o mesmo dólar, isso significa que tudo que é importado fica mais barato. Então, há uma redução da pressão inflacionária”, explica.
De acordo com o economista, em cidades como Pelotas, com forte presença no setor de serviços e comércio, o reflexo deverá ser positivo no consumo. “Essa redução da inflação aumenta o poder de compra do consumidor. Isso faz com que se tenda a gastar mais, ou seja, tem um efeito positivo geral dentro da economia também”, avalia.
A nível regional, no entanto, o impacto pode ser misto, especialmente para o agronegócio. “O fertilizante, por exemplo, que é importado, vai ter uma redução de valor, o que é ótimo para o produtor. Mas, em compensação, a tendência é que ele receba menos pelo seu produto final”, observa. Isso ocorre porque commodities agrícolas costumam ser negociadas em dólar.
Impacto ao consumidor não deverá ser imediato
Os efeitos devem ser positivos para o comércio, mas o impacto será imediato para o consumidor. A avaliação é de Daniel Centeno, Conselheiro Gestor da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Pelotas. Segundo ele, existe um intervalo entre a redução da cotação e a chegada desse movimento aos preços nas lojas.
“A queda do dólar não chega de forma imediata ao consumidor. Existe um efeito de defasagem”, explica. De acordo com Centeno, isso ocorre porque grande parte do varejo trabalha com estoques comprados anteriormente, quando a moeda norte-americana estava em patamares mais altos. Além disso, outros componentes do preço final, como logística, impostos e margens operacionais, não se ajustam automaticamente.
Centeno aponta que setores ligados à importação ou com insumos atrelados à moeda estrangeira devem sentir o efeito primeiro. A expectativa é de que produtos eletrônicos, itens importados e parte da cadeia de combustíveis estejam entre os primeiros a refletir o novo cenário cambial, ainda que de maneira progressiva nos próximos meses. “A gente vai sentir o fluxo ao longo do tempo também”, afirma.
Tensões internacionais favoreceram o mercado
Para Eduardo Tillmann, dois fatores principais ajudam a explicar esse recuo da moeda norte-americana: o aumento das exportações de petróleo do Brasil e a manutenção da taxa básica de juros em nível elevado.
Segundo ele, as tensões internacionais envolvendo o Irã e o Estreito de Hormuz acabaram favorecendo o mercado brasileiro. “A questão do conflito do Irã, em função do Estreito de Hormuz e do escoamento da produção de petróleo, aumentou as nossas exportações de petróleo aqui. Cada vez mais recordes da exportação de petróleo do Brasil e isso faz com que entre bastante divisa para cá”, afirma. Na prática, explica Tillmann, a entrada maior de dólares no país torna a moeda mais abundante e reduz seu valor frente ao real.
Outro ponto citado por ele é o patamar da Selic, que segue alto mesmo após recentes reduções. “Ainda assim é uma das taxas de juros mais elevadas em termos mundiais. Isso é um atrativo para o investidor estrangeiro que quer receber essa taxa de juros como remuneração”, destaca. Esse movimento amplia a entrada de capital externo e contribui para segurar a cotação do dólar.










