Em 2025, descobri minha epilepsia. Na época, foi surpreendente, porque nunca me vi como uma pessoa que ficaria doente. Toda a minha família me convenceu de que eu não era doente — nem perto disso. Deram-me inúmeros exemplos de pessoas com epilepsia que vivem uma vida completamente normal, ainda que sob uso contínuo de medicação. A grande questão, diziam, era encontrar o remédio certo e a dosagem adequada. Parecia simples.
O que eu não esperava era, um ano depois, ainda estar nessa busca. Já brinquei com médicos: sou um mistério da medicina, um caso a ser estudado. Então, já cansada, voltei esta semana à capital para mais exames. Mais um entre incontáveis que já fiz. Este, porém, com duração de 72 horas e um objetivo claro a ser monitorado: eu precisava convulsionar.
Quando a enfermeira entrou para preencher toda a minha cabeça com fios conectados à tomada, fiz uma piada de mau gosto sobre como não apareceria nada de novo, no mesmo tom de exaustão que eu realmente sentia. Nadir, a enfermeira, contou-me sobre uma adolescente que tinha cinquenta convulsões por dia e que havia feito esse tipo de exame mais de vinte vezes. Passou por três cirurgias cerebrais e agora estava bem. Senti-me ingrata por reclamar e, honestamente, também muito menos chateada, presa ao pensamento inevitável: podia ser bem pior.
E lá estava eu, sem meus remédios, cheia de fios, durante 72 horas, esperando uma convulsão monitorada. Em Pelotas, se eu deixo de tomar uma dose, chego a convulsionar. Passei três noites sem nenhum remédio e absolutamente nada aconteceu. Ao final do exame, meu médico disse:
— As tuas ondas cerebrais são completamente normais. Não aparenta epilepsia.
E seguimos conversando sobre as possibilidades que, há um ano, me atormentam. A principal hipótese levantada pelo doutor é a de que eu tenha algo psicogênico – causado por algum estado psicológico, explicando de forma bastante leiga e resumida. Terapia, psiquiatras e muito autoconhecimento poderiam ajudar, caso o palpite esteja correto.
Saímos do hospital, e meu sentimento em relação à adolescente das cirurgias mudou. Senti inveja. O “problema” dela foi retirado com uma pinça — três vezes, com muitos riscos, mas foi. O meu dependia do meu trabalho interno. Uma menina de 21 anos. Um trabalho que poderia levar anos e, até lá, convivendo com os efeitos colaterais dos remédios. É uma sensação estranha.
O teu corpo reage fisicamente, demonstra que precisa que tu te conheças melhor. Imediatamente penso no filme Comer, Rezar, Amar e em como talvez eu devesse fazer algo parecido para aprender a me tratar melhor. Ou talvez isso seja apenas uma desculpa para viajar o mundo. Ainda assim, faz sentido pensar em geografia. Afinal, a ironia de tudo isso é que, após três dias em Porto Alegre e nada, convulsionei no ônibus, chegando a Pelotas.










