Maranata mira Eduardo Leite pela BR-116


Marcelo Maranata chegou ao PSDB no final do ano passado dentro de um movimento de reconstrução do partido no Rio Grande do Sul. A sigla perdeu Eduardo Leite para o PSD e passou a procurar um nome capaz de recolocar os tucanos na disputa estadual. Em Pelotas, Maranata deixou claro que pretende fazer isso usando a experiência na Prefeitura de Guaíba como principal credencial política.

O gancho mais forte da passagem pela Zona Sul foi a crítica indireta a Leite. Mesmo dizendo que não pretende fazer uma gestão de “terra arrasada” e que aproveitaria projetos positivos de governos anteriores, Maranata afirmou que esperava mais atenção à Metade Sul de um governador identificado com a região. A imagem usada por ele foi simples: imaginava que Leite pegaria a BR-116, passaria por Guaíba e chegaria a Pelotas, enxergando de perto as demandas locais e entregando mais.

A frase funciona politicamente porque conecta território e cobrança. Guaíba é a cidade que Maranata governou. Pelotas é a cidade de origem política de Leite. A BR-116 é o eixo físico entre esses pontos. Ao usar essa imagem, o pré-candidato tentou transformar uma crítica regional em argumento eleitoral: se nem um governador ligado à Metade Sul entregou o que a região esperava, seria preciso buscar outro tipo de gestor.

Essa é a linha que Maranata tenta construir. Ele não quer ser lido como ruptura completa com o ciclo Leite, mas precisa se diferenciar do atual arranjo político que hoje passa pelo PSD e pelo vice-governador Gabriel Souza (MDB), adversário na disputa.

O problema, para ele, é transformar essa narrativa em candidatura competitiva. Maranata reconheceu que terá menos tempo de propaganda eleitoral, mas disse confiar no apoio financeiro prometido pela direção nacional do PSDB. Essa informação é importante: uma candidatura de reconstrução partidária precisa, ao mesmo tempo, mostrar alcance.

Na comparação com os demais nomes, Maranata tentou se apresentar como uma candidatura menos dependente de referências externas. Ao dizer que não tem “Bolsonaro”, “o avô” ou “Leite”, mirou Luciano Zucco, Juliana Brizola e Gabriel Souza. Mas, na prática, também precisará demonstrar quem sustenta politicamente sua caminhada, quais prefeitos entram de fato na campanha e como o PSDB pretende compensar a perda de protagonismo estadual após a saída de Leite.

A passagem por Pelotas mostrou que Maranata ainda está apresentando sua candidatura ao Estado. O discurso de prefeito bem avaliado é seu ponto de partida. A próxima etapa será provar que a experiência de Guaíba pode ser convertida em programa estadual, estrutura de campanha e presença real fora da Região Metropolitana.

Dois projetos, um programa

A Câmara de Pelotas publicou a lei que autoriza a prefeitura a dar continuidade ao Vida Ativa sob o nome de Programa Vida Ativa Permanente. A publicação ocorreu porque a Prefeitura deixou passar o prazo legal sem assinar nem rejeitar o projeto aprovado pelos vereadores. Quando isso acontece, a Lei Orgânica do município permite que o próprio presidente da Câmara assine e publique a lei, o que foi feito.

Para entender o que está em jogo, é preciso voltar alguns passos. Em março, a própria Câmara derrubou o projeto da Prefeitura para renovar o Vida Ativa, causando polêmica. Sem aprovação legislativa, o programa ficou parcialmente paralisado. Foi então que o vereador Paulo Coitinho (Cidadania) apresentou uma proposta própria. O texto foi aprovado por unanimidade, com 15 votos. A lei estabelece contratos temporários de até oito meses e determina que, durante esse período, a Prefeitura já realize o concurso público para substituir os temporários por servidores efetivos.

Foi depois dessa aprovação que a Prefeitura enviou à Câmara seu próprio projeto, o Vida Ativa +, com anúncio oficial em coletiva de imprensa do prefeito Fernando Marroni (PT). O texto propõe uma estrutura diferente: contratos de 12 meses prorrogáveis por igual período, 30 vagas com categorias específicas de atuação e ampliação formal do quadro de servidores municipais na área de educação física. Sinaliza intenção de concurso, mas sem fixar prazo para isso.

São dois caminhos distintos para o mesmo programa. Um aprovado pelos vereadores, agora publicado como lei. Outro enviado pelo Executivo em resposta, ainda em tramitação na Câmara. A prefeitura não assinou a lei de Coitinho, mas também não a rejeitou. Rejeitar formalmente um projeto aprovado por unanimidade sobre um programa com mobilização popular comprovada tornaria ainda mais difícil aprovar o projeto próprio nas semanas seguintes. Deixar o prazo vencer, sem assinar nem rejeitar, foi o caminho do meio.

O desfecho mais provável é que o projeto do executivo tramite sem grandes resistências. O próprio Coitinho afirmou que pretende apresentar emendas ao texto, o que sinaliza disposição para negociar ajustes em vez de barrar a proposta. Se o Vida Ativa + for aprovado com ou sem emendas, a Prefeitura seguirá seu próprio modelo. A lei de Coitinho permanece válida, mas sem aplicação prática. A Câmara que publicou a lei do Vida Ativa Permanente decidirá nas próximas semanas se aprova um projeto que, na prática, a substitui.

Desgaste nacional

A repercussão dos áudios e mensagens em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pede apoio financeiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro começou a provocar ajustes discretos na pré-campanha do deputado federal Luciano Zucco ao governo do RS. Nos bastidores, lideranças do PL e do PP admitem que existe uma preocupação em evitar que o desgaste nacional atinja diretamente a construção da chapa gaúcha. O receio não envolve apenas o caso de Flávio. Também pesa o avanço das investigações da Polícia Federal sobre a relação do senador Ciro Nogueira (PP) com o escândalo do Banco Master. Ciro preside nacionalmente o PP, principal aliado do PL no RS e partido da deputada estadual Silvana Covatti, cotada para a vice na chapa de Zucco. A principal mudança desenhada pela pré-campanha é reforçar o foco nos temas regionais do Estado, reduzindo, ao menos neste momento, a conexão direta com o debate nacional. A leitura interna é que concentrar o discurso em pautas do RS ajuda a conter possíveis desgastes e também protege a candidatura caso surjam novos fatos envolvendo lideranças nacionais da direita.



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