Aos 34 anos, Alex Moreira carrega na garganta e na caneta a responsabilidade de traduzir o Rio Grande em versos. Intérprete e compositor premiado, ele é a prova de que o nativismo rompeu as porteiras das estâncias para pulsar com a mesma força no concreto das cidades. Com dois troféus recentes, o Melhor Intérprete na 17º Canto Missioneira e no 12º Levante da Canção, Moreira utiliza sua arte para conectar o passado mítico às vivências do homem contemporâneo.
Como você vê a importância de transmitir o tradicionalismo para as novas gerações hoje?
A cultura é um grande canhão; temos um poder e uma responsabilidade enormes. O nativismo tem raiz forte no universo rural, que é lindíssimo, mas é preciso comunicar que a cultura gaúcha também é urbana. Isso cria pertencimento para o jovem que, como eu, não nasceu no campo e pode sentir um bloqueio, achando que não tem espaço de fala. A cultura é cíclica: falamos do passado, mas também do que estamos vivendo hoje.
Entre ser intérprete e compositor, qual dessas facetas tem mais peso para você?
Olha, é difícil, mas assim, eu me vejo muito mais como intérprete do que como compositor. Minha paixão vem da capacidade de transmitir mensagens e da versatilidade. O palco tem uma energia única; é uma experiência diferente de entregar uma canção para outro artista. Se eu tivesse que optar, seria intérprete, embora adore pesquisar temas para escrever.
Como é a sensação de ver uma obra sua ser interpretada por outro cantor?
De verdade, eu fico muito mais nervoso assistindo algo que eu compus no palco do que quando eu vou para o palco. Isso aí é fato, desde a primeira vez. É diferente, eu não sou pai ainda, mas dentro do meu atual universo seria como se eu estivesse vendo um filho meu desabrochar para o mundo, um filho artístico. É uma sensação diferente, mas tão gratificante quanto, sem dúvida nenhuma.
Recentemente você venceu o 17º Canto Missioneiro. Como foi cantar em frente à Catedral de Santo Ângelo?
O Canto Missioneiro é um dos festivais mais consolidados atualmente na nossa área. Ele faz parte daquela coletânea de festivais que, quando criança, a gente assiste e deseja um dia fazer parte da história daquele movimento. Cantar na frente da catedral, especialmente nos 400 anos das Reduções Jesuíticas, traz uma carga energética muito forte. A música que defendi, Yvytu Yma, é baseada em um mito guarani sobre um vento ancestral. Tudo convergiu: o tema, o local e o momento histórico. Foi a cereja do bolo. Por casualidade, no final do ano passado, no mês de novembro, teve um festival que a gente chama de Festival de Laboratório, que funciona assim: a gente é convidado para ir para um ambiente, normalmente mais rural, meio imerso, sem celular. A ideia é propor um tema na sexta-feira e compor músicas até sábado à noite. Em 24 horas, a gente tem que compor músicas em cima daquele tema. E eu tinha feito essa pesquisa pouco antes e guardado para tentar compor alguma coisa. E cheguei lá e o tema que propuseram era o vento. E eu falei, bom, é porque esse tema tem que sair, tem que acontecer. E aí eu compus lá nesse festival. A gente guardou essa música, gravamos ela posteriormente com arranjos do Everson Maré, que é um artista extraordinário. A melodia foi feita com a ajuda de um grande irmão, que é o João Pinheiro, que é de Piratini. O festival ano passado não tinha sido feito na frente da Catedral, voltou para lá, então tudo deu certo para realizar esse sonho, a música foi levada para o palco, o público aceitou muito bem ela, isso já é uma alegria muito grande e o prêmio de intérprete veio para ser a cereja do bolo.
Você também conquistou o prêmio de intérprete no 12º Levante da Canção, em Capão do Leão. Como foi essa experiência?
O evento se chama Levante da Canção. O Capão do Leão é um festival que está na 12ª edição, já se consolidou aqui na nossa região sul, tem um impacto bem bacana porque a gente tem premiações específicas ali que tratam sobre a pedra, já que o Capão do Leão também tem todo o lance das pedreiras, dos graniteiros, então é um festival bem importante. Eu não tinha nenhuma música autoral, mas dois colegas de música me convidaram pra defender duas canções nessa edição. Uma delas se chamava O Causo da Tapera, era uma música mais despojada, mais engraçada. E a segunda chamava o Guri de comparsa, do Silvio Carvalho e do Luiz Felipe Delgado, uma canção falando sobre os meninos que ficavam observando a prática da esquila, da tosa das ovelhas. Então era uma música que tinha uma carga emocional muito legal e foi a que me rendeu o prêmio de intérprete, um fato diferente pra mim, porque eu tinha uma viagem pra fazer na madrugada e eu tive que sair do festival antes de terminar. Botei a transmissão ao vivo e vi que eu tinha ganhado o prêmio pela internet, então, não tinha ainda passado por essa experiência, foi bem legal, bem interessante.












