Aos 38 anos, o porto-alegrense Guilherme da Silva vive um processo recente de reconstrução. Após anos em situação de rua e convivendo com o uso de drogas, ele relata uma virada de vida impulsionada pela fé, pelo apoio de amizades e por novas rotinas, como a corrida de rua, por exemplo.
Quem é o Guilherme? Conta teu nome completo, idade e de onde tu é.
Meu nome completo é Guilherme Garcia da Silva, nasci em 18 de novembro de 1987, tenho 38 anos. Não sou pelotense, sou de Porto Alegre, de Alvorada. Mas aqui em Pelotas eu construí vínculos de amizade muito fortes, algo fora do comum, que eu levo comigo com muita gratidão.
Como é que tu acabou te tornando uma pessoa em situação de rua?
Aconteceram muitas coisas, mas principalmente por escolhas minhas. Eu não posso culpar os outros. Eu escolhi usar droga, achei que estava tudo bem naquele momento, e acabei me afundando. Isso vai afastando a gente da família, e quando vê, já está na rua. Eu fiquei nessa luta por cerca de 18 anos, entre idas e vindas, tentando parar e voltando de novo. Minha mãe morreu e, pouco tempo depois, eu acabei saindo de casa. Eu fiz algo errado, me arrependo muito disso, e um dia quero reparar. Fiquei mais de um ano na rua em Porto Alegre. Carrego esse arrependimento, mas também carrego a vontade de mudar.
E como começa essa virada recente na tua vida?
Eu cheguei em Pelotas no dia 24 de março e reencontrei amigos. No dia 26, corri pela primeira vez com um amigo meu, o Vinícius Pi. Aquilo ali mudou alguma coisa dentro de mim. Depois daquela corrida, eu decidi que ia parar de usar droga. No dia seguinte, acordei e não usei mais.
E como foram esses primeiros dias sem usar?
Foi um dia de cada vez. Primeiro dia sem usar, depois o segundo, terceiro… E fui vencendo. Também parei de fumar cigarro depois de um tempo. Teve um momento que tentei voltar, mas meu próprio corpo rejeitou. Foi como se ele estivesse dizendo que eu não precisava mais daquilo.
O que te ajudou nesse processo?
As amizades. O carinho das pessoas. Isso não tem preço. Também a corrida, que me fez sentir vivo de novo. E principalmente a minha fé. Eu nunca perdi minha conexão com Deus, mesmo quando estava na pior fase.
Hoje tu estás há cerca de um mês sem usar. O que mudou na tua rotina?
Mudou tudo. Eu acordo cedo, gosto de caminhar, conversar com Deus, agradecer por mais um dia. Eu estou fazendo as mesmas orações de antes, mas agora sem a droga. E criei uma regra pra mim: não prejudicar nem a mim, nem aos outros. E isso está dando certo. Eu recém estou escalando o fundo do túnel. Mas eu estou vendo a luz.
E como tu estás se mantendo nesse período?
Eu comecei a trabalhar. Ganhei um cooler, vendi água na rua, depois ajudei em vendas no calçadão. Com isso fui conseguindo dinheiro pra comer. Hoje eu prefiro trabalhar do que pedir. Isso faz diferença pra mim.
Dá pra dizer que tu venceu o vício?
Sim, com certeza. Eu posso afirmar isso. Porque eu não estou sozinho. Eu tenho fé, tenho Deus comigo. Hoje eu não me vejo mais como dependente químico. Eu sou dependente de Deus.
Quais são teus sonhos agora?
Quero trabalhar, ocupar minha mente, seguir em frente. Quero participar de corridas, construir uma vida nova. Eu sei que depende de mim também, das minhas escolhas daqui pra frente.














