
Passados dois anos de um dos episódios mais marcantes da história recente de Pelotas, a enchente que atingiu bairros inteiros da cidade ainda deixa reflexos visíveis e emocionais em diversas comunidades. Regiões como Colônia Z3, Pontal da Barra, Doquinhas e Laranjal seguem convivendo com lembranças que vão além da água que invadiu casas, ruas e vidas.
O episódio, considerado por muitos moradores como a maior enchente já registrada na cidade, trouxe prejuízos materiais, deslocamento de famílias e um sentimento coletivo de insegurança que, segundo relatos, ainda não foi totalmente superado.
Lembranças que ainda doem
Na Colônia Z3, comunidade tradicional de pescadores, o cenário mudou drasticamente durante aquele período. Casas ficaram submersas, embarcações foram danificadas e famílias inteiras precisaram sair às pressas.
“Foi um desespero que a gente não esquece. A água subiu muito rápido. Perdemos móveis, roupas e até documentos. Até hoje dá medo quando começa a chover forte”, relata um morador da região, que prefere não ser identificado.
Já no Pontal da Barra, outro ponto fortemente atingido, moradores recordam que o acesso ficou comprometido e o isolamento trouxe ainda mais preocupação.
“A gente se sentiu abandonado por alguns momentos. A ajuda demorou pra chegar em certos pontos. Hoje melhorou, mas ainda falta muita coisa pra garantir segurança de verdade”, afirma uma moradora.

Marcas físicas ainda presentes
Mesmo após dois anos, quem circula pelos bairros atingidos ainda encontra sinais claros da enchente. Estruturas danificadas, ruas com manutenção parcial e imóveis que não foram completamente recuperados fazem parte da paisagem.
No bairro Doquinhas, moradores relatam que algumas famílias nunca conseguiram retornar às condições anteriores.
“Tem casa que até hoje não voltou ao normal. Tem gente que recomeçou praticamente do zero e ainda está se recuperando”, comenta outro residente.
No Laranjal, área bastante frequentada por moradores e turistas, também é possível perceber impactos. Embora algumas melhorias tenham sido realizadas, ainda há pontos que denunciam os efeitos da enchente.
“Quem vem visitar às vezes não percebe tudo, mas quem mora aqui sabe. Ainda tem coisa pra arrumar, ainda tem insegurança quando o tempo vira”, relata um morador da região.

Sensação de insegurança
Além das perdas materiais, um dos principais pontos destacados pelos moradores é o medo constante de que uma situação semelhante volte a ocorrer.
A instabilidade climática e os eventos extremos cada vez mais frequentes reforçam a preocupação.
“A gente vive com o olho no tempo. Qualquer previsão de chuva forte já deixa todo mundo em alerta”, diz um pescador da Z3.
Moradores também apontam que, apesar de algumas ações do poder público, ainda há sensação de que muito precisa ser feito para garantir prevenção e resposta rápida em situações futuras.




Cobrança por mais ações
Outro ponto recorrente nas falas da comunidade é a cobrança por medidas mais efetivas por parte do poder público, especialmente em áreas como drenagem, infraestrutura e planejamento preventivo.
Segundo relatos, algumas melhorias ocorreram ao longo dos últimos anos, mas ainda são consideradas insuficientes diante da dimensão do problema enfrentado.
“A gente vê algumas obras, algumas ações, mas ainda falta um plano maior, algo que realmente evite que isso aconteça de novo”, afirma um morador do Pontal da Barra.
Solidariedade que marcou
Em meio à tragédia, um dos aspectos mais lembrados pela população é a união entre as pessoas. Durante os dias mais críticos, voluntários, entidades e moradores se mobilizaram para ajudar quem mais precisava.
Um dos exemplos citados é o “da União do Povo”, movimento solidário que reuniu esforços para arrecadação de donativos e apoio às famílias atingidas.
“A união das pessoas foi o que salvou muita gente. Teve doação de comida, roupa, ajuda pra limpar casa… foi o povo ajudando o povo”, relembra uma moradora emocionada.
A ação se tornou símbolo de resistência e solidariedade em um momento de extrema dificuldade, reforçando o papel da comunidade diante da adversidade.
Reconstrução ainda em andamento
Dois anos depois, a cidade segue em processo de reconstrução — não apenas estrutural, mas também emocional.
Famílias continuam reorganizando suas vidas, reconstruindo casas e tentando retomar a rotina.
Para muitos, no entanto, a sensação é de que a recuperação ainda não foi completa.
“A gente segue tentando, mas não é fácil. Perder tudo de uma vez muda a vida da gente”, relata um morador do Laranjal.
Olhar para o futuro
A data reacende o debate sobre a importância de políticas públicas voltadas à prevenção de desastres naturais, planejamento urbano e proteção das áreas mais vulneráveis.
Especialistas apontam que eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes, o que exige preparo, investimento e ações contínuas.
Enquanto isso, a população segue vigilante e esperançosa por melhorias.
“A gente não quer passar por isso de novo. Só queremos segurança e condições de viver tranquilos”, resume um morador da Colônia Z3.
Por : Nataniel Gonçalves – Portal Pelotas Noticias














