No Dia do Trabalhador, a discussão sobre o fim da escala 6×1 reacende um embate histórico: de um lado, o argumento de custo e produtividade; de outro, a defesa de mais tempo livre e qualidade de vida. Em Brasília, as propostas em relação ao modelo em que se trabalha seis dias para um de descanso avançam no Congresso Nacional e já passaram por etapas iniciais de análise, com perspectiva de tramitação em comissão especial antes de chegar ao plenário.
Para as empresas, o risco da produção…
Esse cenário está longe de ser consenso. Para o coordenador do Conselho de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Guilherme Scozziero, a proposta traz efeitos que ainda não estão claros no debate público. “O que não está dito nisso é quem vai pagar a conta. E diferente do que se pensa, não são as empresas que vão pagar a conta. Quem vai pagar é o trabalhador”, afirma, apontando o risco de inflação e desemprego. Ele também critica o que chama de confusão entre conceitos. “Hoje está se fazendo uma mistura muito grande de jornada com escala e, no meu ponto de vista, muito grave, se tenta proibir uma escala de trabalho na Constituição”.
Na visão da indústria, o momento do país também pesa contra a mudança. “Nós precisamos primeiro aumentar a produtividade e depois poder pensar em reduzir a escala”, argumenta Scozziero, citando gargalos estruturais e alertando para um possível avanço da automação: “É inegável que as indústrias vão automatizar mais os seus processos”.
…para os trabalhadores, busca por tempo livre
Do outro lado, o movimento sindical sustenta que a mudança é necessária e possível. A coordenadora regional sul da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Ana Paula Rosa, afirma que a pauta é histórica. “É uma luta antiga e histórica da CUT. A gente sempre carregou essa bandeira de chegar nas 40 horas semanais”, aponta. Para ela, a lógica econômica precisa ser invertida. “Não existe prejuízo. A nossa mão de obra é muito barata. É menos lucro, mas ninguém vai ficar no prejuízo”.
Ela também associa a mudança a ganhos sociais. “É mais descanso, é mais lazer para o trabalhador. A vida não tem hora extra, né? É sobre as nossas vidas”, afirmou, defendendo que a redução pode gerar empregos e melhorar a saúde dos trabalhadores: “Vai ter um funcionário mais disposto, mais descansado, menos adoecido”.
Debate atual tem raízes históricas
Para além da disputa econômica, pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas chamam atenção para o caráter histórico da discussão. A professora Lorena Gill destaca que até o próprio nome da data carrega disputa política. “É Dia do Trabalhador, então é um dia de luta, de resistência”, afirma. Segundo ela, a expressão “Dia do Trabalho” foi difundida no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas, como parte de uma estratégia de valorização do papel do Estado.
O historiador Paulo Koschier amplia o olhar e relaciona o trabalho à própria formação humana. “O trabalho fez quem nós somos”, reflete, ao lembrar que a atividade produtiva acompanha a humanidade desde os primeiros hominídeos. Já no contexto brasileiro, Lorena reforça que o trabalho sempre esteve ligado a desigualdades: “Os nossos primeiros trabalhadores foram os indígenas. Depois nós tivemos trabalhadores escravizados”.
Para os dois, o debate atual sobre jornada não é isolado, mas parte de uma evolução histórica. “A nossa luta é permanente”, cita Lorena, citando conquistas como férias e 13º salário, que também já foram alvo de resistência. Ela defende que a discussão sobre a escala 6×1 é urgente diante do cenário atual: “A gente vive numa espécie de sociedade do cansaço”.
Koschier aponta que experiências internacionais já indicam caminhos possíveis. “As pessoas trabalham menos tempo, mas produzem mais”, aponta, ao citar modelos como o 4×3 em alguns países. Para ele, a mudança depende de mobilização: “Não virá pela benesse de quem detém os meios de produção, virá pelo engajamento, pela luta das pessoas”.
Entre produtividade e saúde mental
O contraponto entre produtividade e bem-estar também aparece na análise acadêmica. Enquanto setores empresariais temem queda de desempenho, os pesquisadores destacam impactos na saúde mental e na organização da vida. “É necessário que as pessoas tenham direito ao ócio”, defende Lorena, citando estudos que defendem mais tempo para lazer, cultura e convivência. Ela alerta que o excesso de trabalho pode levar ao adoecimento: “É como se nós só vivêssemos para trabalhar”.
Koschier acrescenta que a realidade de muitos trabalhadores ainda se aproxima da lógica de exaustão. Ao citar exemplos como entregadores por aplicativo, ele observa: “Essa pessoa precisa, no final do dia, levar um valor para casa. Isso não deixa de ser muito difícil”.
Festival do Trabalhador
O Dia do Trabalhador será marcado por mobilização em Pelotas. O Festival do Trabalhador, promovido pela CUT e entidades sindicais, que seria nesta sexta-feira, foi transferido para domingo, devido à previsão de chuva.
O evento ocorre no Largo do Mercado, a partir das 13h, com programação que reúne atrações musicais, apresentações culturais, teatro e feira de economia solidária. A proposta é transformar a data em um espaço de encontro, cultura e de afirmação política das pautas da classe trabalhadora. “É um dia de a gente reafirmar nossas lutas, mas também de celebrar”, resume Ana Paula Rosa.














