Quem chega na casa de passagem e no centro pop de Pelotas encontra uma estrutura completa com alimentação, ocupação e um lugar quente para dormir. A história do pelotense Maurício Vargas Medeiros, de 29 anos, prova que o local ainda pode ser palco de sonhos realizados.
Há cerca de três meses no local, após viver em situação de rua por um período, Medeiros se adaptou tão rapidamente a rotina que agora é parte ativa da estrutura. Ajudando na cozinha e na organização do local, a trajetória dele virou exemplo dentro da unidade.
Natural de Pelotas, Maurício conta que antes estava morando no bairro Dunas. “Eu vi que eu tinha que fazer uma coisa a mais. Me apresentaram esse lugar aqui e eu estou até hoje.”
Para ocupar o tempo, Maurício começou a ajudar os funcionários da casa e acabou descobrindo uma vocação: a cozinha. Ele começou ajudando a lavar os pratos, organizar os quartos e servir os colegas. “O trabalho não é obrigatório, faço porque eu gosto. É uma coisa que me chamou a atenção. Eu fui fazendo, fui gostando e peguei o gosto”, conta.
Ocupação irá virar profissão

(Foto: Jô Folha)
Hoje é natural a presença dele cortando cebolas na mesa ou preparando um macarrão na ilha do centro da cozinha. “Eu queria mesmo era trabalhar aqui na parte da cozinha.” O próximo passo é transformar a afinidade pela cozinha em profissão. Segundo ele, o curso de culinária já está em andamento. “Estou fazendo um curso de culinária, que é o que eu gosto de fazer. Já comecei faz uma semana”, conta, orgulhoso.
Referência para os acolhidos
O coordenador da Casa de Passagem e do Centro Pop, Rafael Atencio, afirma que Maurício se tornou referência entre os acolhidos. “Ele sempre correu atrás para tentar ser um usuário voluntário. E um dos objetivos da casa de passagem é gerar autonomia nos próprios usuários”, diz.
Segundo Atencio, o interesse pela cozinha abriu as portas para o futuro melhor. “Surgiu a oportunidade de fazer a inscrição nele num curso de gastronomia e ele ficou bem faceiro com isso, porque deseja seguir uma vida diferente”, completa.
Estrutura funciona 24 horas
O espaço da rua Senador Mendonça, adaptado recentemente em um antigo Lar de Idosos da Igreja Católica, reúne dois serviços no mesmo prédio: o Centro Pop, durante o dia, e a Casa de Passagem, à noite. “Durante o dia giram em torno de 350 a 400 pessoas”, explica Rafael.
O Centro Pop funciona das 8h às 17h, oferecendo café da manhã, almoço, café da tarde e encaminhamentos para serviços da rede socioassistencial e de saúde. “Às terças-feiras o consultório de rua está aqui pela manhã e acaba fazendo encaminhamentos médicos também”, relata.

(Foto: Jô Folha)
Já a Casa de Passagem atende das 19h às 7h da manhã. “A gente tem 110 vagas e estamos recebendo diariamente entre 90 a 100 usuários por dia”, afirma o coordenador.
Na chegada, os usuários passam por revista com detector de metais e guarda de pertences. “Eles têm que deixar bolsas e sacolas em armários para não entrar material cortante ou isqueiros.” Depois, são encaminhados para banho e jantar. “Às vezes eles passam o dia inteiro sem fazer alguma refeição”, explica Rafael. Após a alimentação, os acolhidos podem assistir televisão e filmes até o horário de recolhimento aos quartos, às 23h.
Frio aumenta procura
Segundo Rafael Atencio, o número de pessoas em situação de rua aumentou nos últimos anos. Além disso, durante o inverno, a demanda da casa cresce ainda mais. “Tem aumentado o nível de pessoas em situação de rua por conta da vulnerabilidade social. No ápice do inverno acaba chegando a 120, 130 usuários.” Mesmo acima da capacidade oficial, a unidade mantém espaços reservados para emergências.
A equipe também realiza abordagens sociais nas ruas para oferecer acolhimento. “O que a gente não pode fazer é forçar os usuários a serem acolhidos”, explica. Muitas recusas, segundo ele, estão relacionadas ao uso de álcool e outras substâncias. “Como aqui não pode estar sob efeito dessas substâncias, eles acabam negando o acolhimento.”
Ainda assim, o coordenador destaca que o objetivo do serviço vai além do pernoite. “A gente trabalha enquanto equipe para ele ser uma pessoa autônoma.” Em casos como o de Maurício, o acolhimento acaba se transformando em oportunidade de recomeço.












