No universo do agronegócio e da indústria alimentícia gaúcha, poucas marcas conseguem evocar uma conexão tão direta com a tradição quanto a Tordilho Alimentos. O que hoje se apresenta como uma potência logística e industrial, com uma meta de vendas que ultrapassa as 3,5 mil toneladas mensais, nasceu de um imprevisto burocrático e da visão resiliente de um homem. A história de empreendedorismo da família Barz, detalhada pelo empresário Elias Barz, atual proprietário da Barz & Cia. Ltda, é um testemunho de como a obsessão pela qualidade e o respeito às raízes transformaram um pequeno arrendamento em uma das marcas mais importantes na metade sul do Rio Grande do Sul.
A cronologia da empresa traz de volta o ano de 1987, quando Edgar Barz, pai de Elias, já falecido, e sócio-fundador, arrendou um engenho de arroz em Pelotas. “Na época ele fazia todo o processo, comprava arroz em casca, secava, beneficiava e embalava. E nesse engenho, o dono anterior deixou umas embalagens da marca”, relembra Elias. Em síntese: o negócio veio acompanhado de um estoque de embalagens da marca “Cavalo Branco”.
Durante dois anos, com a boa evolução do engenho, a operação seguiu sob esse nome, mas o destino reservava um obstáculo. Ao tentar formalizar o registro definitivo no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), Edgar Barz recebeu uma notícia desmotivadora: a marca já tinha sido registrada. Ou seja, ele não poderia utilizá-la.
Determinado a manter a identidade visual que remetia à força e à nobreza do cavalo e ao alimento que surge no meio rural, Edgar buscou uma alternativa que preservasse a figura do equino. A solução veio da própria natureza: o “Tordilho”, um cavalo de pelagem instigante que, com o passar dos anos, migra do tom escuro para o claro. O registro foi concedido em 1989, oficializando o nascimento de uma marca que, em 1994, com a entrada de Elias na sociedade e a fundação da Barz & Cia. Ltda, ganharia escala industrial.
Construção de um império de grãos
Embora o arroz tenha sido o DNA inicial da empresa, os sócios da Tordilho compreenderam cedo que a fidelidade do consumidor gaúcho seria conquistada pela diversificação. Em 1991, atendendo a pedidos de clientes que buscavam a conveniência de encontrar tudo em um só fornecedor, o feijão preto entrou no portfólio.

Arroz, feijão, lentilha e pipoca são embalados na fábrica de Pelotas (Foto: Ana Cláudia Dias)
No mesmo período, Edgar adquiriu a indústria da rua Leopoldo Brod, onde até hoje a empresa funciona. Com bastante espaço foi possível acrescentar mais grãos na produção local.
Uma aposta certeira
Apesar de ter começado com o arroz e ser, ainda, o alimento mais vendido da empresa, foi mesmo o feijão que trouxe notoriedade para a Tordilho. “Em 1996, por aí, começamos uma campanha de marketing mais forte em cima do feijão. Por isso, muitas vezes, o pessoal conhece hoje a Tordilho mais pelo feijão do que pelo arroz”, relembra o empresário.
O grande salto de sofisticação, porém, ocorreu em 1999. Elias Barz recorda que a introdução da farinha de trigo foi outro marco importante na empresa. “Importamos a farinha do Uruguai e, posteriormente, da Argentina, focando na qualidade superior as farinhas que tem aqui no Brasil, o padrão ‘4 zeros’”, explica.
Em meados de 2000 o moinho uruguaio começou a passar por dificuldades, ameaçando a boa entrega de qualidade e quantidade necessárias para a Tordilha. “ainda bem que aconteceram algumas modificações no moinho e ele foi adquirido por um grupo argentino. Esse grupo nos abriu a possibilidade de trazermos a farinha da Argentina”, conta o empresário.
A decisão não foi apenas comercial, mas estratégica: posicionar a Tordilho como uma marca de farinha premium foi essencial para a aceitação do produto, que hoje é um dos mais queridos pelos consumidores. “Arroz, feijão e farinha de trigo estão em torno de 85% do nosso volume total de vendas”, conta.
Hoje, o mix de produtos é robusto e eclético, contando com mais de 50 itens. Além dos pilares (arroz, feijão e farinha), a empresa oferece pipoca (vinda do Mato Grosso), lentilha (importada do Canadá), ervilha partida, canjicas, farinhas de milho (Goiás) e mandioca. “Vimos que nossos clientes tinham necessidade de outros tipos de grãos, como a pipoca por exemplo, e fomos diversificando com outros produtos. A gente quer oferecer o máximo de alimentos possíveis ao nosso consumidor, ao atacadista, porque de certa forma, diminuímos o custo logístico”, comenta Elias.

O milho da pipoca vem de fornecedores do Mato Grosso (Foto: Ana Cláudia Dias)
Os lançamentos mais recentes de 2026 incluem a linha de aveias, bem como o óleo de girassol, oriundo da Argentina, que já vem envasado. As novidades mostram que a empresa continua atenta às tendências e agora aposta no consumo, que valoriza produtos saudáveis.
Qualidade e padronização
Para Elias Barz, manter a qualidade dos produtos não é apenas um diferencial, mas uma obrigação inegociável. “Somos obrigados a manter a mesma qualidade que o pessoal está acostumado e isso é um desafio também. Por isso a gente não quer perder o foco e não ficar lançando produtos que não têm a ver com o nosso tipo de negócio”, fala o empresário.
Barz relembra, por exemplo, uma lição aprendida no passado: a tentativa de substituir a farinha importada por uma nacional de custo menor, mas qualidade inferior. O resultado foi uma queda drástica nas vendas e o descontentamento imediato dos consumidores.
“É preferível que um cliente não compre por causa do preço do que por falta de qualidade”, afirma o empresário. Essa filosofia tem moldado as parcerias da empresa, algumas com quase três décadas de duração, como o fornecedor de farinha.
A empresa prefere manter um ticket médio ligeiramente superior para garantir que, ao abrir um pacote Tordilho, o consumidor encontre um alimento de qualidade superior. Essa busca pelo “conceito de alimento” fez, inclusive, com que a empresa descontinuasse a linha de erva-mate. Apesar da forte cultura gaúcha, a diretoria percebeu que o produto exigia uma logística e um marketing muito distintos do restante do portfólio, não se encaixando na visão de expansão de alimentos da marca.
Operação e logística
Com uma equipe de aproximadamente 80 colaboradores diretos, a Tordilho Alimentos opera em um modelo misto. Na sede em Pelotas, o foco é o envasamento de grãos. Diariamente, a unidade processa cerca de 60 toneladas de arroz e 30 toneladas de feijão, além de volumes menores de pipoca e lentilha.
Outros produtos, que exigem infraestruturas industriais específicas, são produzidos por parceiros estratégicos. É o caso do arroz parboilizado e das conservas. Enquanto a maioria dos grãos atravessa fronteiras estaduais e internacionais para ganharem a marca da empresa, os pêssegos e figos em calda mantêm a tradição local, sendo produzidos e enlatados na própria região de Pelotas, valorizando a vocação doceira da cidade.
Quanto ao alcance, Barz diz que o foco é o Rio Grande do Sul. A Tordilho, segundo o empresário, é líder na Metade Sul e possui forte penetração em Porto Alegre e Santa Maria. “O nosso foco é trabalhar só no Estado. Começamos aqui em Pelotas, na região sul, atendendo Rio Grande, Bagé, toda essa região de fronteira aqui com o Uruguai, onde somos fortes até hoje”, conta.
No entanto, Elias vê que ainda há muito espaço de crescimento sem sair do Estado. Regiões como a Serra Gaúcha e o Noroeste gaúchos são os próximos alvos de expansão, onde a proximidade com o cliente e a logística ágil servem como vantagens competitivas contra gigantes nacionais.












