Apesar da tentativa de diferentes setores do PT gaúcho de atribuir exclusivamente à direção nacional do partido a decisão pela intervenção no diretório do RS, a atuação de lideranças locais foi determinante para substituir a pré-candidatura própria de Edegar Pretto pela de Juliana Brizola, do PDT, ao governo do Estado.
O cenário real, conforme deputados de diferentes tendências admitem em reservado, passou longe de uma suposta importância do PDT para a reeleição de Lula ou do comprometimento dos trabalhistas com pautas à esquerda. Em seu lugar, estão a fragmentação do partido no RS, onde a disputa entre alas internas, conhecidas como correntes, alcançou um patamar considerado hoje incontornável. E a estratégia eleitoral posta em curso pelo grupo do deputado federal Paulo Pimenta, pré-candidato ao Senado, para tentar conquistar uma das vagas na Câmara Alta, mesmo que isso significasse abrir mão da cabeça de chapa.
Ao longo dos meses de crise, a ala de Pimenta atuou silenciosamente, mantendo tratativas com o PDT, defendendo sua tática junto ao comando nacional, e fazendo chegar à imprensa argumentos a favor da desistência de Pretto. A tese do entorno do deputado é a de que a conquista do governo do Estado é secundária em relação à composição do Senado. Que o primeiro voto do campo da esquerda para o Senado será dado à pré-candidata do PSol, Manuela D’Ávila, sem uma necessária associação com o nome do PT. E que uma chapa com Juliana fornece ao parlamentar condições de se apresentar como um candidato que representará, para além da esquerda, o centro político. Por isso, seu grupo não se opõe a que Juliana se apresente como de centro.
A escalada da crise, as cobranças reiteradas do PDT nos bastidores e a determinação de Pretto em não desistir, contudo, acabaram obrigando o time de Pimenta a fazer dois movimentos públicos. A divulgação de um documento no feriado. E a solicitação para que o grupo de trabalho eleitoral nacional do partido incluísse na pauta da reunião desta terça-feira, 7, uma decisão sobre a situação no RS, dando um start concreto para a intervenção.
A partir da inclusão, o GTE emitiu uma nota pró-aliança, votada de forma protocolar pela executiva nacional na tarde desta terça. O comando nacional vai endossar a posição de apoio à Juliana. A partir disso, a executiva do PT no RS se reúne na quarta e também emite uma posição. Pretto havia chegado a solicitar uma reunião do diretório gaúcho para colocar em votação mais uma vez a candidatura própria e a determinação da nacional. Mas, por enquanto, a convocação de fato do diretório no RS é dada como incerta.
Posições divergentes entre forças
A divisão de forças dentro do diretório do PT gaúcho também serviu de combustível para a determinação que retira o 13 da urna na disputa pelo governo do Estado. Em números arredondados, o grupo do pré-candidato ao Senado, deputado Paulo Pimenta, chamado Socialismo em Construção (SoCo), tem hoje 24% do partido no RS. A segunda maior corrente, contudo, é a Democracia Socialista (DS), a qual pertencem quatro dos 11 deputados estaduais, e que tem 18%. A DS foi uma das alas mais atuantes a favor de Pretto.
A terceira maior força é a Articulação de Esquerda, com 15%. Entre suas lideranças estão o deputado federal Dionilso Marcon e o ex-prefeito de São Leopoldo, Ary Vanazzi. O grupo ligado à Edegar Pretto e a seu irmão, Adão Pretto, tem 11% do diretório. As correntes Resistência Socialista, do secretário geral do diretório nacional, Henrique Fontana, e Avante, da deputada federal Maria do Rosário, tem aproximadamente 10% cada. E a Construindo um Novo Brasil (CNB), que domina o partido nacionalmente e é ligada ao presidente Lula, tem 6% da sigla no Estado. Os 6% restantes são preenchidos por frações dos números ou correntes minoritárias.
Durante os meses de embates internos, a DS, a Articulação de Esquerda e o grupo dos Pretto defenderam a candidatura própria. SoCo e CNB trabalharam pela aliança com o PDT. A corrente de Fontana, apesar de algumas ponderações, nunca escondeu sua preferência pela aliança e queria que Pretto aceitasse a composição e fosse vice de Juliana. A ala de Maria do Rosário sempre defendeu Pretto internamente, e manteve a manutenção do apoio à candidatura própria. Mas existe a possibilidade de que, em uma ainda improvável votação no diretório, possa ser convencida a aderir à tese da aliança.
Articuladores petistas projetam que, na ponta do lápis, a intervenção deverá dividir a sigla no RS em praticamente duas metades. Uma vai cruzar os braços ou trabalhar para que o PSol lance candidatura própria. E outra deve se integrar à campanha de Juliana. Os mais pragmáticos já esboçam uma recomposição da chapa sem o PSol, na qual o PT fique com as duas indicações ao Senado e o PSB ocupe a vaga de vice de Juliana.













