Religião e cultura muçulmana são alguns dos temas abordados pela psicóloga e influenciadora Hyatt Omar nas suas redes sociais. Filha de palestinos, a pelotense produz um conteúdo educativo e pessoal que atraiu quase 200 mil seguidores no Instagram, mesmo com essa acolhida a jovem percebe que estes assuntos ainda expõem preconceitos e muito desconhecimento.
Por que você resolveu usar a rede social para conversar sobre isso com as pessoas?
Eu falo sobre essas questões não necessariamente porque eu escolhi, mas porque elas me escolheram também. Eu me mudei pro Canadá em 2016 para cursar a universidade lá e aí eu compartilhava as coisas do meu dia a dia e as minhas amigas diziam: “posta isso tipo no Instagram, bota isso, faz um canal no YouTube”. Eu sempre gostei muito de conversar, de gravar e editar. Eu comecei a gravar coisas normais do meu dia a dia, por exemplo, compras no Canadá. Percebi que quanto mais coisas eu compartilhava, mais dúvidas surgiam dos seguidores em relação à minha vida pessoal. Aí eu comecei a falar. Lembro que no dia 15 de maio, não tenho certeza se 2020 ou 21, eu postei um vídeo em relação a Nakba, eu sou filha de palestinos, então pra gente é uma catástrofe muito grande, faz parte da nossa história. Aquele vídeo viralizou muito. O vídeo tinha 34 minutos era no formato ainda horizontal, nada como a gente entrega hoje em dia. E aí quanto mais eu postava mais dúvidas surgiam. Eu comecei a falar da Palestina, eu sou uma mulher muçulmana, muitas pessoas perguntavam: “tu não tem que usar o pano na cabeça ou tu não tem que usar burca?”. Eu ia compartilhando e, ao mesmo tempo, quanto mais os seguidores foram crescendo – eu fui criada de uma maneira que sempre que eu vejo algo errado, sempre que a gente vê injustiça, temos que fazer alguma coisa, tem que falar. Porque na minha religião acreditamos que vamos ser questionados sobre isso no futuro tipo: “o que que tu fez pelas pessoas que não tinham voz? O que que tu fez pelas pessoas que precisavam?” Quanto mais visibilidade eu fui ganhando, mais eu me senti na responsabilidade de compartilhar o meu conhecimento para desmistificar, as pessoas me ajudaram nessa jornada.
Você recebe ofensas, palavras de ódio?
Sim bastante. Eu já abri boletim de ocorrência, tive situações de ameaça de morte. Foi uma jornada ao longo dos anos, porque quando eu comecei eu tinha 21, 22 anos, eu tenho 27 agora, e eu não tinha muita noção das coisas: eu (pensava) vou postar uma coisa, a pessoa não gostou, vai deixar de lado, não vai me incomodar, mas as pessoas acham que a internet é terra sem lei, então quanto mais eu apostava, tinha o lado bom, obviamente de educar as pessoas, mas também tinha um lado negativo das pessoas que não concordavam. E por falar de assuntos muito delicados recebia um hate muito grande. Páginas, organizações compartilhando coisas para que eu recebesse mais hate. Lembro que em 2021 a gente teve uma situação na Palestina, em Sheikh Jarrah (bairro de Jerusalém Oriental), que tivemos palestinos despejados forçadamente daquela região e eu fiz um vídeo falando sobre. Acho que aquele foi o momento que eu mais recebi hate, tanto que eu desativei o Instagram por um tempo, porque a minha saúde mental pesou muito. Na época eu não fazia terapia.
Tu tem parentes na Palestina, como é hoje a tua ligação com essa região?
A Palestina atualmente está dividida em Cisjordânia e em Gaza. A minha família está na Cisjordânia. E eu tenho a documentação da Cisjordânia, então mesmo sendo palestina eu não posso entrar em Gaza, eu preciso de autorização de Israel para conseguir entrar. Por exemplo, se tu queres ir para Gaza, tens que entrar pela fronteira com o Egito. Não tenho nenhuma ligação direta com qualquer pessoa de Gaza, obviamente, não posso nem dizer que eu me identifico porque eu nunca passei por uma situação igual a que eles passam. Mas situações na Cisjordânia, com assentamentos legais, tem ruas separadas em que israelenses podem usar e ruas que palestinos podem usar. Temos sistemas de apartheid, por exemplo, palestinos tem os casos julgados em cortes militares onde a sentença é maior enquanto os civis israelenses têm casos processados em cortes civis. São sistemas que diferem muito a gente tem resoluções da ONU que não são respeitadas, de inúmeras questões. A minha ligação com a Palestina acaba sendo na Cisjordânia, neste território na qual eu tenho a família da minha mãe que mora em Hebron e a família do meu pai que é de um vilarejo. É bem legal. Eu gosto bastante de ir pra lá, eu cresci, eu falo Árabe, dentro de casa sempre foi o primeiro idioma que eu escutei. Tenho uma conexão direta com a Palestina, sempre que possível eu tento ir para lá.
Por desenvolver esse conteúdo educativo, Hyatt recebeu o título de Cidadã Emérita de Pelotas. Qual o significado deste título?
O que eu faço assim em prol da Palestina, em prol da cultura Árabe, do islamismo, é um trabalho voluntário. O fato de eu tocar em certos assuntos ao invés de me possibilitar, já me impossibilitou de fechar parcerias, por exemplo, certas marcas queriam que eu abrisse mão dessa parte. Eu não consigo abrir mão porque é uma coisa muito ética pra mim, é um valor, eu não me arrependo, eu faço muito de coração, faço de boa vontade, vou fazendo de boas, tipo conversando. Então quando eu recebi essa homenagem, a gente vê a visibilidade, o quanto alcança pessoas. Tem vezes que a gente não consegue entender a proporção. É muito difícil ter essa noção e quando eu recebi a essa homenagem, que foi muito honrosa pra mim, do vereador Jurandir, eu fiquei muito feliz, não esperava realmente, aqueceu o coração porque quer dizer que o que eu tô fazendo tá dando certo, que tem um impacto, está alcançando as pessoas que eu quero que alcance, que tá conseguindo furar a bolha. Porque eu acho que, às vezes, têm pessoas que preferem estar na ignorância, mas tem pessoas que realmente não têm acesso. Eu diria que foi uma validação para mim de que todo esforço, todo o hate, todo o trabalho, as noites estudando, todos os scripts escritos, tudo valeu a pena.













